Empreendedores sociais: o lado B do empreendedorismo

A propósito do que estava falando no post anterior sobre o filme “Quem se importa” (se não leu, corre), algo que deixei para falar em um texto exclusivo, dada a importância do assunto, é justamente sobre o tema central do documentário: o empreendedorismo social.

Muhammad Yunus
Muhammad Yunus

O filme ganhou projeção internacional, sendo vencedor de prêmios e indicados em vários festivais, além de ser recomendado pela UNESCO e isso tudo não foi por pouca coisa. Atribuo o alcance e dimensões a que chegou não só a beleza das histórias, mas também por se tratar de um tema super atual, tanto que dois dos empreendedores sociais destacados no filme foram ganhadores do Prêmio Nobel da Paz: Muhammad Yunus em 2006, criador do Grameen Bank, laureado “Por seus esforços em promover o desenvolvimento econômico e social das classes desfavorecidas” e em 2014, Kailash SatyarthiPela sua luta contra a discriminação das crianças e jovens e pelo direito destes à educação” na Índia.

Mas o que é, afinal, o empreendedorismo social?

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Como relatado no próprio filme, ser um empreendedor social não é propriamente uma profissão reconhecida, não está descrita na CBO (Código Brasileiro de Ocupações), tampouco em outros códigos mundo afora.

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Kailash Satyarthi

Pode-se dizer que esta área do conhecimento está mais para aquela descrição sobre o Lado B do primeiro post – se não leu, está aí a oportunidade que faltava, mas, como estou de bom humor, vou repetir aqui dada a pertinência e até a necessidade de ratificar a proposta do blog: “aquilo que remete ao não comercial, ao alternativo, a segunda face de alguma coisa, a diversidade, espontaneidade, ao lado oposto e ao lado bom “.

Ser empreendedor social é como se fosse o lado B do empreendedorismo tradicional. Aí está uma descrição que não deve ter sido usada até hoje. Vou explicar começando sobre o que é o lado A do empreendedorismo:

Dees (1998) em seu artigo “The Meaning of Social Entrepreneurship” fala que, numa aplicação livre do termo, o empreendedorismo está muito ligado à ação de iniciar um negócio. O termo “entrepreneur” teve origem na economia francesa por volta do século XVII ou XVIII. Em francês significa alguém que ”empreende” um projecto ou uma actividade significativa. Mais especificamente, passou a ser usado para identificar os indivíduos mais arrojados que estimulavam o progresso econômico ao descobrirem novas e melhores formas de fazer as coisas. A autoria deste conceito é normalmente atribuída ao economista francês Jean Baptiste Say, que, no século XIX já dizia: “O empreendedor movimenta recursos econômicos de uma área de baixa produtividade para outra de maior produtividade e rendimento.”(Dees, 1998).

Mas foi a definição do economista Joseph Schumpeter, no século XX que, parece ser a mais popularizada. Schumpeter descreve os empreendedores como “inovadores que conduzem o processo “criativo/destrutivo” do capitalismo. Nas suas palavras, “a função dos empreendedores é reformar ou revolucionar o padrão de produção”. Podem fazê-lo de várias formas, “através da exploração de uma invenção ou, mais genericamente, de uma possibilidade tecnológica ainda não experimentada para produzir um novo produto ou a produção de um já existente mas de outra forma, através da abertura de novas fontes de abastecimento de materiais ou de um novo mercado para os produtos, através da reorganização de uma indústria, etc.” Os empreendedores de Schumpeter são os agentes da mudança na economia. Ao servir novos mercados ou ao criar novas formas de fazer as coisas, fazem avançar a economia” (Dees,1998)

Uma das coisas mais interessantes deste conceito e que, mais tarde, influenciará a definição de algumas escolas do Empreendedorismo Social.

A diferença do empreendedor para o empreendedor social é que estes, segundo Dees, são uma espécie de empreendedor, mas com uma missão social. Para eles a missão social é a questão central e o impacto relacionado a esta missão torna-se o critério central e não a criação de riqueza. Esta (a riqueza), é vista apenas como um meio para atingir um fim, enquanto que, para os empreendedores empresariais a criação de riqueza é uma forma de medir a criação de valor. Em resumo, o empreendedor social busca criar valor social.

A definição de empreendedor social que Dees apresenta, é uma compilação de elementos propostos por vários autores. Para ele os empreendedores sociais desempenham o papel de agentes de mudança no setor social ao:

– Adotar uma missão para criar e manter valor social (e não apenas valor privado);
– Reconhecer e procurar obstinadamente novas oportunidades para servir essa missão;
– Empenhar-se num processo contínuo de inovação, adaptação e aprendizagem;
– Agir com ousadia sem estar limitado pelos recursos disponíveis no momento; e
– Prestar contas com transparência às clientelas que servem e em relação aos resultados obtidos.

Quanto mais próximos destes critérios estiverem os líderes da área social, mais, perto estarão de corresponder a este modelo de empreendedor social. Lembrando que este é apenas um modelo e que mais tem a ver com os empreendedores sociais do filme, numa análise superficial.

A propósito, o modelo Schumpeteriano centra sua definição em dois aspectos principais: a inovação, que é produto da “destruição criativa” e a ação empreendedora entendida como pertencente a um indivíduo que é dotado de um determinado perfil psicológico inato.

Receber o rótulo de empreendedor social nem sempre é importante para quem realmente o é. Muitos empreendedores sociais estão tão focados em agir nos territórios que nem sabem ou se importam de de ser. A partir do relato de alguns empreendedores sociais aprensentados no filme “Quem se Importa”  levaram anos para identificarem em si os atributos de um empreendedor social e se identificarem como tal.

No entanto, a necessidade de financiamento frente a um mercado em crise ou, talvez, não tão disposto a investir em empreendimentos sociais, e de fortalecimento diante do tamanho do problema a que se dispõe a combater: a pobreza, faz com que estes líderes sociais se mobilizem em grandes redes de empreendedores, como a Rede EMES e a Ashoka, por exemplo.

Conforme mostrarei no esquema a seguir, cada uma dessas redes ou escolas de empreendedorismo social possui características próprias: conceitos de empreendedorismo, critérios de definição dos empreendedores sociais, formas de se relacionar com o mercado e com os stakeholders, etc.

Principais Escolas de Empreendedorismo Social >>> clique aqui

Deu para perceber o porquê da metáfora com os discos de vinil agora? Para mim, e esta é uma opinião pessoal, o empreendedorismo social é o lado B do empreendedorismo, justamente porque é uma alternativa ao mercado para milhões de pessoas que sofrem justamente pelos efeitos dos mecanismos do mercado. Não quero demonizar o mercado, nããão (este não foi meio irônico), porque dele depende hoje, o nosso modo de vida (que pena, porque nos meus devaneios não dependeria, mas, enquanto não alcançamos outro…).10374451_727272874021463_7093130957871775918_n

Mas sim, é o mercado e sua regulação maior ou menor pelo Estado nas diferentes nações, que determina os maiores ou menores índices de pobreza. Logo, quem se opõe a ele merece meu respeito, #merepresenta.

Além do que, o empreendedorismo social abre espaço para a criatividade, para a solução de problemas através de formas inusitadas, simples, mas muito inovadoras (veja o filme). O lado B do empreendedorismo me cativa porque dá espaço para aquilo que, ao contrário do que os céticos pensam, é também, parte da condição humana: a solidariedade, a cooperação, a empatia, mas que, num mundo onde prevalece o egoísmo, a acumulação de capital, as aparências, a dominação, a opressão (também parte da condição humana), acaba por ficar esquecido.

Lembrando-vos que sou, como diria Vinícius de Moraes, “um operário em construção” nas artes do filosofismo sobre o tema. Acabei de começar, mas como acredito que a linguagem auxilia nos processos cognitivos, escrever é um bom artífice para este processo de construção.

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