Quem se importa?

“Quem se importa” é um documentário realizado por Mara Mourão que apresenta, através de depoimentos e animações, o trabalho de dezoito empreendedores sociais que tiveram ideias inovadoras e, através delas, transformaram a vida de milhões de pessoas em várias partes do mundo.

O documentário foi filmado em sete países diferentes – Brasil, Suíça, Peru, Canadá, EUA, Tanzânia e Alemanha. Conta histórias sobre pessoas que, sensibilizadas com o sofrimento causado pela pobreza e exclusão social e motivadas por ideais de justiça e igualdade, mobilizaram-se para minimizar este sofrimento, colocando em prática ideias simples, mas capazes de mudar a vida de muita gente.

Vi este filme logo que cheguei a Portugal por sugestão de uma professora do Mestrado, justamente por se tratar de empreendedores sociais e este ser o tema daquela aula. O filme estava disponível no Youtube então tratei logo de assistir.

Fiquei muito emocionada com as histórias contadas nos depoimentos. Sem exceção, estes depoimentos descortinam histórias de pessoas que, por vivenciarem a exclusão, a pobreza e problemas decorrentes, ou mesmo pessoas que não tiveram esse infortúnio, mas que estiveram próximas desta realidade pela profissão que escolheram, e o mais importante, pessoas que se sensibilizaram. Está aqui o motivo pelo qual este filme me tocou profundamente: sensibilidade.

A sensibilidade no sentido de se sentir tocado pela dor alheia, ter empatia, profundos sentimentos de compaixão e humanidade. Sentir-se pertencente a um planeta onde, acima de qualquer coisa – etnia, religião, opção política ou posição social – somos iguais pois pertencemos a mesma espécie e independentemente de qualquer diferenciação social ou cultural, somos passíveis de sentir dor seja ela da natureza que for.

Essa sensibilidade foi, talvez, o primeiro impulso destas 18 pessoas para fazer alguma coisa diante da dor alheia, diante das injustiças sociais e das mazelas que ela produz.

Isso foi o que mais me tocou. A sensibilidade.

Dor e sofrimento vemos todos os dias nos meios de comunicação, mas, dos milhões de expectadores, quantos se sensibilizam? E destes, quantos partem para a ação? Quem realmente se importa?

Antes de qualquer análise sobre o que é, efetivamente, ser um empreendedor social, precisei compreender o motivo pelo qual me senti tão pequena diante deste filme e tão sensibilizada. Chorar diante de um filme romântico ou um drama vá lá, mas chorar vendo um documentário, acho que foi a primeira vez (tá, tá, não foi a primeira vez… choro até com comerciais de TV heheh).

Cheguei a conclusão que tem a ver com a apatia com que convivi nos últimos anos. Trabalhei com comunidades pobres atuando em políticas públicas de assistência social. Poderia dizer que o que mais me chocou nesse trabalho foram os casos de violência doméstica, abuso sexual, drogadição, entre tantos outros. Mas não, o que mais me chocou foi a apatia. Isso que não é propriamente um sentimento, mas uma reação frente a situações onde se espera alguma sensibilidade por parte de quem enxerga a dor.

Vi esta apatia quase que diariamente nos olhos de muitos profissionais, técnicos de diferentes áreas, saúde, educação, assistência social que atendiam diariamente pessoas em comunidades pobres, (não sofre somente quem vive na pobreza, mas foi com essa realidade que trabalhei) que passavam pela dor de ver um (a) filho (a) abusado (a) sexualmente por um familiar (que esperava ser a pessoa que ajuda a proteger e não uma ameaça), a mulher que se vê emaranhada numa relação que só traz dor pela violência a que se submete e que não consegue dar um basta, os pais que veem um filho se entregando para as drogas, morrendo lentamente, ou o filho que não teve a oportunidade de ser cuidado pelos pais por conta das drogas. A privação de afeto, de proteção, de saúde, de comida na mesa, a insegurança, a casa que no próximo temporal pode ruir. Estas são apenas alguns exemplos de situações a que milhares de famílias estão submetidas diariamente em todo o mundo, sem contar as áreas de conflito pelo tráfico ou pela guerra.

A apatia diante disso tudo é preocupante, foi o que me revoltou, me causou dor, meu sentimento era mais ou menos assim: helloooo, ninguém tá vendo isso aqui? Hello Sr. Dr. Profissional graduado, pós-graduado, mestre, conhecedor dos mistérios da vida… você não vai fazer nada diante disso? Vai fazer de conta que está tudo bem?

Bem, o julgamento não ajuda em nada, mas me fez pensar muito durante os últimos anos, sobre como as coisas estão organizadas. Cheguei a conclusão que todos sofrem, aquele que passa por todas as situações da lista, e, também, aquele que se formou sonhando em exercer uma profissão que, pretensamente, deveria servir para ajudar a melhorar a vida das pessoas (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, educadores). São dois lados da mesma moeda e, em ambos a apatia é a reação para estancar a dor (Freud explica!).

Sem querer entrar em questões mais aprofundadas sobre os mecanismos psíquicos que produzem essas reações, o que me interessa é compreender quem é essa moeda e a quem ela serve. Se são dois lados de uma mesma coisa, o que é a moeda? Nessa metáfora, penso que a moeda é justamente a nossa forma de organização social que dá margem à pobreza, que deixa ela se alastrar e que pra amenizar os efeitos dos mecanismos que a produzem, cria sistemas altamente burocráticos onde emprega profissionais qualificados que possam, com seu arcabouço teórico e metodológico, minimizar os efeitos da pobreza. Não sei como é estar do lado de quem sente os efeitos da pobreza extrema (apenas imagino), mas posso afirmar que também não é fácil ter o peso da expectativa de ter de fazer alguma coisa pra minimizar o sofrimento alheio.

Como não ser apático diante de tudo isso?

Depois de muito refletir, dei-me conta do motivo daquele momento catártico que o filme produziu em mim. Sensibilizar-se, importar-se e ainda, fazer alguma coisa em meio a tudo isso é a superação do próprio ser humano. Como uma expressão muito utilizada no contexto da Inovação, é “pensar fora da caixa”. Não só pensar, mas sentir. Sentir sem vitimizações, sentir criticamente, decidir não ser um lado da moeda – e essa metáfora está mais para trocadilho já que. Suponho, está tudo ligado à moeda.

Os 18 empreendedores sociais que compartilharam suas histórias no documentário fizeram isso e, para mim, serviu de inspiração neste meu período sabático em que, além de estudar, tenho feito uma revisão do meu percurso profissional e pessoal.

Espero que inspire outras pessoas também!

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